quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Nova ministra da mulher é aborteira



O MINISTÉRIO DILMA - Nova ministra da Mulher confessa que já treinou abortos por sucção mesmo não sendo médica. Mais: ela se considera avó de um neto, mas também do aborto
 
No dia 14 de outubro de 2004, a então apenas professora Eleonora Menicucci, que tomou posse como ministra das Mulheres na semana passada, concedeu uma entrevista a uma interlocutora chamada Joana Maria. O texto está nos arquivos da Universidade Federal de Santa Catarina (a íntegra está aqui). Já fiz uma cópia de segurança porque essas coisas costumam desaparecer quando ganham publicidade. Está certamente entre as coisas mais estarrecedoras que já li. De sorte que encerro assim este primeiro parágrafo: se um torturador vier me dar a mão, eu a recuso, cheio de asco. Se a ministra Eleonora vier me dar a mão, eu me comportarei da mesma maneira, com o estômago igualmente convulso.

Antes que entre propriamente no mérito, algumas considerações. Aqui e ali, tenta-se caracterizar a ministra como uma espécie de defensora apenas intelectual do aborto, apegada à causa no universo conceitual, retórico, de sorte que a sua nomeação não representaria um engajamento da presidente Dilma Rousseff e de governo na causa do aborto. Falso! Falso e na contramão dos fatos. Alguns parlamentares, notadamente da bancada evangélica, fizeram duros discursos contra a ministra e foram caracterizados pela imprensa como uns primitivos ideológicos. Então vamos ver se a ministra está com a civilização…

Abaixo, transcrevo alguns trechos daquela sua entrevista, concedida quando ela já estava com 60 anos. Não se pode dizer que o diabo da imaturidade andava soprando em seus ouvidos. Não! Eleonora confessa na entrevista que não é apenas “abortista” — termo a que os ditos progressistas reagem porque o consideram uma pecha, uma mácula. Ela também é aborteira. Viajou pela sua ONG à Colômbia para aprender a fazer aborto por sucção, o método conhecido como AMIU (Aspiração Manual Intra-Uterina). Deixa claro que o objetivo de seu trabalho é fazer com que as pessoas se “autocapacitem” para o aborto, de sorte que ele possa ser feito por não-médicos. É o caso dela! Atenção! DILMA ROUSSEFF NOMEOU PARA O MINISTÉRIO DAS MULHERES uma senhora que defende que o aborto seja uma prática quase doméstica, sem o concurso dos médicos. Por isso ela própria, uma leiga, foi fazer um “treinamento”. Não! Jamais apertaria a mão de torturadores. E jamais apertaria a mão de dona Eleonora por isto aqui (volto depois)

“ESTIVE TAMBÉM FAZENDO UM TREINAMENTO DE ABORTO NA COLÔMBIA, POR ASPIRAÇÃO”
 Eleonora -  Dois anos Aí, em São Paulo, eu integrei um grupo do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. ( ). E, nesse período, estive também pelo Coletivo fazendo um treinamento de aborto na Colômbia.
 Joana - Certo.
 Eleonora - O Coletivo nós críamos em 95.
 Joana - Como é que era esse curso de aborto?
 Eleonora - Era nas Clínicas de Aborto. A gente aprendia a fazer aborto.
 Joana - Aprendia a fazer aborto?
 Eleonora - Com aspiração AMIU.
 Joana - Com aquele…
 Eleonora - Com a sucção.
 Joana - Com a sucção. Imagino.
 Eleonora - Que eu chamo de AMIU. Porque a nossa perspectiva no Coletivo, a nossa base…
 Joana -  é que as pessoas se auto auto-fizessem!
 Eleonora - Autocapacitassem! E que pessoas não médicas podiam
 Joana - Claro!
 Eleonora - Lidar com o aborto.
 Joana - Claro!.
 Eleonora - Então vieram duas feministas que eram clientes, usuárias do Coletivo, as quais fizeram o primeiro auto-exame comigo. Então é uma coisa muito linda.
 Joana - Hum.
 Eleonora - Muito bonita! Descobrirem o colo do útero e…
 Joana - Hum.
 Eleonora - Ter uma pessoa que segura na mão.
 Joana - Certo.

 “NÓS DECIDIMOS, EU E O PARTIDO, QUE EU DEVERIA FAZER UM ABORTO”
 Num outro trecho, Eleonora conta como ela e o seu partido, o POC (Partido Operário Comunista), tomaram uma decisão: ela deveria fazer um aborto. Tratava-se apenas de uma questão… política!

 Eleonora - Porque a minha avaliação era que eu tinha que fazer
 Joana - a luta armada aqui.
 Eleonora - a luta armada aqui. E um detalhe importante nessa trajetória é que, seis meses depois de essa minha filha ter nascido, eu fiquei grávida outra vez. Ai junto com a organização nós decidimos, a organização, nós, que eu deveria fazer aborto porque não era possível
 Joana - Certo.
 Eleonora - Na situação ter mais de uma criança, né? E eu não segurava também. Aí foi o segundo aborto que eu fiz.



EU TIVE MINHA PRIMEIRA RELAÇÃO COM MULHER. E TRANSAVA COM HOMEM; ESTAVA COM MEU MARIDO”
 Falastrona e ególatra, como já apontei aqui, ela faz questão de contar na entrevista que teve a sua primeira relação homossexual quando ainda estava casada. Era o seu mergulho no que ela entende por feminismo.

 Eleonora - Aí já nessa época eu radicalizei meu feminismo. Eu comecei a militar.
 Joana - Onde?
 Eleonora - Em Belo Horizonte, eu comecei a militar neste grupo.
 Joana - Neste mesmo grupo?
 Eleonora - É
 Joana - O que se fazia além de discutir?
 Eleonora - Nós discutíamos o corpo.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Discutíamos a sexualidade. Eu tive a minha primeira relação com mulher também.
 Joana - Hum.
 Eleonora - Quer dizer que foi bastante precoce pra essa E transava com homem.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Pra minha trajetória
 Joana - Mesmo porque tu também estavas com o teu marido eu acho, não estavas?
 Eleonora - Sim, sim.
 Joana - Estavas. Ah
 Eleonora - Mas nós nunca tivemos esse E ele era um cara muito libertário. Nós nunca tivemos essa questão de relação
 Joana: Certo.

“SOU MUITO AMIGA DO FREI BETTO. ELE ME PÔS NO CENTRO DE DIREITOS HUMANOS DA DIOCESE DE JOÃO PESSOA”
 Ora, qual é o lugar ideal para uma humanista desse quilate trabalhar? Frei Betto — sim, aquele… — deu um jeito de arrumar para ela um emprego na Arquidiocese de João Pessoa:

 Eleonora - E aí, no início de 78, eu já tinha me separado do meu ex-marido e resolvo sair de Belo Horizonte. Aí quando eu saio de Belo Horizonte eu busco um lugar bem longe porque eu não queria mais ser referência para a esquerda.
 ( )
 Eleonora - E eu não podia. Então eu procurei isso. Sou muito amiga, por incrível que pareça, a vida inteira, do Frei Betto e pedi a ele pra me encontrar um lugar o mais longe possível de Belo Horizonte. Aí ele falou “Eu tenho dois lugares onde a Diocese é muito aberta: em Vitória, com Dom Luís, ou em João Pessoa, com Dom José Maria Pires. Eu falei: “Eu quero João Pessoa”, quanto mais longe melhor.
 ( )
 Eleonora - É Mas, assim, eu cheguei, eu. Eu tive que construir minha vida.
 Joana -  Hum. Foste trabalhar?
 Eleonora - No Centro de Direitos Humanos da Arquidiocese da Paraíba.
 Joana - Tá legal.
 Eleonora - E aí eu comecei a trabalhar com as mulheres rurais de Alagamar, que era o que eu queria ( ) Logo depois, retomei um grupo, a minha atividade de grupo de reflexão feminista com algumas mulheres em João Pessoa. A maioria de fora de João Pessoa e duas de dentro Então nós criamos o primeiro grupo feminista lá em João Pessoa. Chamado Maria Mulher.
 ( )
 Eleonora - É. “Quem ama não mata” e “O silêncio é cúmplice da violência”, e aí começamos a nos articular dentro do Nordeste.
 Joana - Tá.
 Eleonora - Era o SOS Mulher. O SOS Corpo e um grupo de reflexão que tinha em Natal
Joana: Hum.
 Eleonora - De auto-reflexão. E no Maria Mulher, o que é que nós fazíamos? Nós fazíamos auto-exame de colo de útero, auto-exame de mama.
 ( )
 Eleonora - Depois, em 84, eu venho pra São Paulo fazer doutorado em Ciência Política, já articuladíssima…
 Joana-  Imagino…
 Eleonora - com o feminismo e com linhas de pesquisa bem definidas do ponto de vista feminista.
 Joana - Quem é que te orientou em São Paulo?
 Eleonora - Em São Paulo, foi a Maria Lúcia Montes, uma antropóloga. Embora, na época, ela fosse da Ciência Política. E, em 84, eu entro para o doutorado com uma tese que era sobre Direitos Reprodutivos e Direitos Sexuais a partir É a construção da cidadania a partir do conhecimento sobre o próprio corpo.
 Joana -  Isso por conta do teu trabalho com as mulheres?
 Eleonora - Por conta do meu trabalho com as mulheres em uma favela chamada Favela Beira-Rio.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Lá em João Pessoa.
 Joana - Hum.
 Eleonora -  Que hoje é um bairro. Então nesta época eu fiquei quatro anos em São Paulo fazendo a tese e voltando a João Pessoa. ( ) E aí fui coordenadora do grupo de Mulher e Política da ANPOCS, do GT.
 Joana: Hum.

 
EU TINHA ATITUDES MASCULINAS ( ) ERA DECIDIDA, DETERMINADA, FORTE, SABIA ATIRAR”
 Neste trecho, ela revela como enxergava — enxergará ainda? — os papéis masculino e feminino. Ah, sim: ela sabia “atirar”. Afinal, não se tenta impor uma ditadura comunista no país só com bons sentimentos, não é?

 Joana - Já. E com relação às organizações das quais tu participavas?
 Eleonora - Ah, primeiro que as mulheres dificilmente chegavam a um cargo de poder
Joana - Mas tu eras a chefe?
 Eleonora - Eu era. Fui uma das poucas. Por quê? Eu me travesti de masculino
 Joana - É? Como era?
 Eleonora - Eu tinha atitudes masculinas ( ) Era decidida, determinada, forte, sabia atirar
Joana - Huuunnnn.
 Eleonora - Entendeu?
 Joana - Entendi.
 Eleonora - Sendo que muitas mulheres sabiam isso tudo.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Transava com vários homens.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Essa questão do desejo e do prazer sempre foi uma coisa muito libertária pra mim, e por isso eu fui muito questionada dentro da esquerda.
 Joana - É?
 Eleonora - É.
 Joana - Dentro do mesmo grupo do qual tu eras a líder?
 Eleonora - Sim. Porque o próprio Por questões de segurança, eu só poderia ter relação sexual com os companheiros da minha organização.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Num determinado momento, sim, mas na história do movimento estudantil, também já existia isso.


“EU TIVE MUITAS REFLEXÕES COM MINHAS AMIGAS NA CADEIA; UMA DELAS, A DILMA”
 Neste outro trecho, a gente fica sabendo que Dilma Rousseff foi sua companheira também nas reflexões sobre o feminismo.

 Eleonora - E, depois, imediatamente eu quis ter outro filho
 Joana - Hum.
 Eleonora - E muito no sentido de pra provar para os torturadores, mesmo que fosse simbolicamente, que o que eles tinham feito comigo não tinha me tirado a possibilidade de reproduzir e de ter uma escolha sobre meu próprio corpo
 Joana - Hum.
 Eleonora - Então eu tive mais um filho e logo que ele nasceu também de cesária eu me laqueei.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Então Eu tinha , Eu fui presa com 24 para 25 mais ou menos.
 Joana - Nossa Senhora!.
 Eleonora -.E sai com 30.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Assim, da história toda e com 30 para 31, tive o meu segundo filho e fiz a laqueadura de trompas
( )
 Joana -  E então, tu saíste da cadeia em 74.
 Eleonora - Certo.
 Joana - Tu tiveste algum contato com o feminismo dentro da cadeia, com leituras feministas.
 Eleonora - Não.
 Joana - Ou depois?
 Eleonora - Não, não. Ao longo da cadeia eu tive Durante a cadeia? Eu tive muitas reflexões com as minhas companheiras de cadeia
 Joana - Tá.
 Eleonora - Uma delas é a Dilma Roussef.
 ( )
 Joana - Fizeram uma espécie de grupo de consciência?
 Eleonora - Grupo de reflexão lá dentro.
 Joana - Grupo de reflexão.
 ( )
 Eleonora - Porque eu já saí É.. Eu já saí em 74, eu saí em outubro.
 Joana - Certo.
 Eleonora - No dia 12, Dia da Criança, eu saí já bem claro que eu era feminista.
 Joana - Certo.
 Eleonora - E, logo que eu saí da cadeia, eu em Belo Horizonte, fui procurar um grupo de mulheres.
 Joana - Esses grupos de consciência?
 Eleonora - É, só que era um grupo de lésbicas.
 Joana - Certo.
 Eleonora - E eu não sabia. Era um grupo de pessoas amigas minhas.
 ( )
 Eleonora - Porque eu voltei a estudar!
 Joana - Ah, legal!
 Eleonora - Eu parei de estudar em 68.
 Joana - Huuummm.
 Eleonora - Eu parei no quarto ano de Medicina e no quarto de Ciências Sociais.
 Joana - Foste concluir?
 Eleonora - Fui, aí eu voltei pra concluir.
 Joana - Certo.
 Eleonora -  Na UFMG, e optei por acabar Sociologia.



“SOU AVÓ DE UMA CRIANÇA NASCIDA POR INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL NA MÃE LÉSBICA; E TAMBÉM SOU AVÓ DO ABORTO”
 Finalmente, destaco outro momento de grande indignidade na fala desta senhora. Ao se dizer avó de um neto gerado por inseminação numa filha lésbica e também “avó do aborto”, não só expõe a sua vida privada e a de seus familiares como, é inescapável constatar, demonstra não saber a exata diferença entre a vida e a morte. Leiam. Volto para encerrar.

 Eleonora - E eu digo que a questão feminista é tão dentro de mim, e a questão dos Direitos Reprodutivos também, que eu sou avó de uma criança que foi gerada por inseminação artificial na mãe lésbica.
 Joana - Hum, hum.
 Eleonora - Então eu digo que sou avó da inseminação artificial.
 Joana: (risos)
 Eleonora - Alta tecnologia reprodutiva. E aí eu queria colocar a importância dessa discussão que o feminismo coloca no sentido do acesso às tecnologias reprodutivas.
 Joana - Certo.
 Eleonora - Entendeu? E eu diria: “Eu fiz dois abortos e também digo que sou avó do aborto também porque por mim já passou.
 Joana - Sim.
 Eleonora - Também já passou nesse sentido. E diria que eu sou uma mulher muito feliz e muito realizada. E eu pauto em duas questões: na minha militância política e no feminismo.



Encerro
 É isso aí. Ao nomeá-la ministra, Dilma escolheu sua trajetória, suas idéias, suas práticas. Peço a vocês que comentem com a fleuma necessária. É preciso que se evidencie, com a devida serenidade, que uma aborteira informal e confessa não pode ter lugar na Esplanada dos Ministérios. A sua entrevista como um todo evidencia um pensamento torto. É inconcebível que esta senhora seja considerada uma articuladora de políticas públicas depois da confissão que fez. Até porque, se estivesse no Brasil, não na Colômbia, seu lugar seria a cadeia — em pleno regime democrático, sim, senhores!

É o fundo do poço.

 Por Reinaldo Azevedo



 



Blog Reinaldo Azevedo

14/02/2012 às 6:21

Ministra das Mulheres agora nega, em nota, que tenha ido à Colômbia aprender a fazer aborto. Vai ver eu inventei tudo, né?


O Estadão de hoje traz uma reportagem de Daniel Bramatti e Bruno Boghossian e outra de João Domingos e Tânia Nogueira com a repercussão do post publicado ontem aqui, que trata de uma entrevista concedida em 2004 por Eleonora Menicucci, hoje ministra das Mulheres. Na conversa com uma pesquisadora, ela afirmou, entre outras barbaridades, que fez treinamento de aborto na Colômbia, embora a prática naquele país fosse crime em qualquer caso. Pegou mal? Pegou! A culpa é minha? Não! É dela! Eu revelei o que ela disse e que estava escondidinho no site da Universidade Federal de Santa Catarina. Boas militantes, entrevistada e entrevistadora tentam agora investir na confusão para dar o dito pelo não-dito. Pois é… O chato é que as palavras fazem sentido.

Lê-se no Estadão o que segue. Comento em seguida:
 Autora da entrevista, a professora Joana Maria Pedro, da Universidade Federal de Santa Catarina, disse ao Estado que conversou com Eleonora e outras 150 mulheres do Cone Sul para uma pesquisa sobre o engajamento de feministas na luta contra ditaduras militares. Ela explicou que a ministra solicitou que a publicação fosse retirada do ar em 2011 para evitar a exposição de sua filha, que é citada. A ministra alegou ontem que pediu que o texto fosse retirado do ar em 2010 por conter “imprecisões”.

 “Se havia alguma outra imprecisão, eu não me lembro”, disse a pesquisadora, que inicialmente havia confirmado ao Estado o conteúdo da conversa, “‘Estão usando uma entrevista feita para um trabalho de História para atacar uma pessoa. As pessoas podem ter feito coisas que não fazem mais”, disse Joana Pedro. A transcrição das gravações foi feita por uma estudante e revisada por outra aluna. A entrevista, trazida a público ontem pelo jornalista Reinaldo Azevedo, da revista Veja, deve alimentar as pressões de integrantes da bancada evangélica no Congresso pela demissão da ministra. Setores religiosos vinham atacando Eleonora nos últimos dias por causa de sua posição a favor da descriminalização da prática do aborto.



Comento

 O que estaria querendo dizer a professora Joana Maria Pedro? Que as palavras assumem um sentido novo quando empregadas numa “entrevista para um trabalho de história”? Basta ler o texto para perceber que se trata de uma transcrição da fita. Quanto à exposição da filha, cumpre lembrar que, tão logo nomeada, Eleonora não só abordou a sua própria bissexualidade como voltou a falar da filha lésbica. Tanto é assim que, de saída, eu a sugeri para a capa de uma “Edição Vermelha” da revista “Caras”. Como é, professora Pedro? Então os políticos agora não podem ser confrontados com suas próprias palavras que isso caracteriza um “ataque à pessoa”? A senhora quer debater esse seu conceito à luz da história e da historiografia? Eu topo!

Se a entrevista vai “alimentar” ou não os setores evangélicos, isso, convenham, decorre das palavras da ministra, certo? De resto, considerando que os evangélicos são uma força da sociedade como qualquer outra, têm o direito — e até o dever — de se manifestar.

Eleonora agora nega treinamento na Colômbia

 Informa o Estadão em outro texto. Volto depois:

 A ministra Eleonora Menicucci (Secretaria de Política para as Mulheres) afirmou, por intermédio de curta nota divulgada na noite de ontem, com três itens, que nunca esteve na Colômbia. Disse ainda, no mesmo documento, que a entrevista em que teria dito até que fez curso de aborto no país vizinho “contém imprecisões que a levaram a requerer, em 2010, a sua retirada do site (da Universidade de Santa Catarina)”. Por fim, na nota, a ministra reafirmou que mantém suas convicções, “expressas em entrevista coletiva realizada em 7 de fevereiro de 2012″, e reitera que, como integrante do governo federal, “defende integralmente as posições do governo”.



Voltei
 Ora…
 Fica parecendo que inventei o seu estágio na Colômbia. Terei de reproduzir de novo o trecho:
 Eleonora -  Dois anos Aí, em São Paulo, eu integrei um grupo do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde. (…). E, nesse período, estive também pelo Coletivo fazendo um treinamento de aborto na Colômbia.
 Joana - Certo.
 Eleonora - O Coletivo nós críamos em 95.
 Joana - Como é que era esse curso de aborto?
 Eleonora - Era nas clínicas de aborto. A gente aprendia a fazer aborto.
 Joana - Aprendia a fazer aborto?
 Eleonora - Com aspiração AMIU.
 Joana - Com aquele…
 Eleonora - Com a sucção.
 Joana - Com a sucção. Imagino.
 Eleonora - Que eu chamo de AMIU. Porque a nossa perspectiva no Coletivo, a nossa base…
 Joana - …é que as pessoas se auto autofizessem!
 Eleonora - Autocapacitassem! E que pessoas não médicas podiam…
 Joana - Claro!
 Eleonora - Lidar com o aborto.
 Joana - Claro!.
 Eleonora - Então vieram duas feministas que eram clientes, usuárias do Coletivo, as quais fizeram o primeiro auto-exame comigo. Então é uma coisa muito linda.
 Joana - Hum.
 Eleonora - Muito bonita! Descobrirem o colo do útero e…
 Joana - Hum.
 Eleonora - Ter uma pessoa que segura na mão.
 Joana - Certo.

Retomando
 Que imprecisão pode haver aí? Está tudo claro! Por que Eleonora mentiria sobre a sua experiência em 2004? Eu diria, apegado apenas à lógica, que ela teria mais motivos para mentir agora. Afinal, o aborto ainda é crime na Colômbia — excetuando-se risco de morte da mãe, estupro e má-formação do feto. E, ainda assim, as exceções datam de 2006. Não fica bem o país ter num ministério uma senhora que confessa que atravessou a fronteira para praticar crimes no país vizinho.

Mais: a experiência é relatada como parte de um trabalho de “autocapacitação” para o aborto, o que é de lascar!. Notem que o “façamos nós mesmos” chega à, vamos dizer, visita ao “colo do útero”. Segundo entendi, essa coisa “muito bonita” foi feita pela própria Eleonora nas companheiras. Colo de útero não é lugar de fazer turismo. Pode-se chegar lá como parte de uma “coisa bonita”, sim, mas aí já não se trata de atividade relacionada à saúde, privativa dos médicos.

Dona Eleonora é irredimível. Mas é irredimível por suas próprias palavras, em 2004 ou em 2012. Eu só descobri a entrevista, escondidinha no site na Universidade Federal de Santa Catarina. As palavras, no entanto, são da agora ministra.

Comentem com moderação!

Por Reinaldo Azevedo


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